Nomofobia: você sofre disso?

Tudo neste planeta recebe nome. Nada pode ficar sem nome, senão logo ganharia um até por ter essa condição. Não tem jeito. Se é nomeado pode ser classificado e passa a pertencer a algum grupo, ganha mais respeito, parece. O nome desconhecido por mim mais recente que ouvi foi nomofobia. Para quem não sabe, trata-se de uma síndrome em que a pessoa sente um desconforto ou angústia causados pela incapacidade de comunicação através de aparelhos celulares ou computadores. A palavra tem origem no inglês: No-Mo ou No-Mobile, sem telemóvel. Em resumo, é a fobia de ficar sem um aparelho de comunicação móvel. Esse termo surgiu na Inglaterra, onde mais de 50% das pessoas possuem telemóveis. A tal fobia pertence ao quadro das novas dependências ou, falando de outro modo, dos novos objetos da dependência. Dependência sempre existiu. Nós somos dependentes, o que varia é o objeto.

Já dizia o psicanalista Donald Winnicott que o bebê passa por um processo de dependência absoluta até a dependência relativa, em seu desenvolvimento. Quando em estado de dependência absoluta, o bebê necessita inteiramente da mãe ou de alguém que cuide dele. E esta, se tiver condições para isso, precisa passar por certa regressão parcial para entrar no estado de preocupação materna, segundo o psicanalista. É um estado temporário em que a mãe se afasta dos compromissos com o ambiente para poder se dedicar, o máximo possível, ao seu bebê. É como se ela se esquecesse do mundo para atender ao seu filho. Por isso fala-se em regressão, porque o natural é considerar que tanto a mãe quanto o bebê, gradativamente, comecem a estabelecer outros vínculos e alarguem, com o tempo, seus horizontes. Esse momento de dependência absoluta é muito delicado, pois o bebê precisa viver a experiência ilusória de que é o criador da mãe, e que esta é objeto de seu domínio, e que existe para satisfazê-lo. Enquanto experimenta isso, vai se fortalecendo para poder, aos poucos, entender a mãe como outro indivíduo, com vida própria e outros interesses além dos referentes à sua existência.

Tornar-se independente está associado tanto a uma capacidade própria da pessoa de tolerar essa condição solitária e contar com recursos próprios, assim como a um ambiente facilitador que tenha fornecido os cuidados suficientes para que ela, abastecida de confiança, possa seguir em frente, agora mais separada da mãe.

Não é coisa simplista e matemática, mas pensa-se que uma vez que essa fase tenha sido bem vivida no sentido de que essa dupla mãe-filho pode estar em seus papéis de cuidador e dependente, a criança, e depois o adulto, estabeleçam em suas vidas relações em que a dependência existe, porém é entendida como complementação e enriquecimento. Mas, se a dupla falhou, ostensivamente, na experiência de viverem a dependência absoluta, com as ilusões pertinentes ao momento, algumas dificuldades poderão aparecer, pois esforços terão de ser feitos para superar as faltas.

Todos nós temos de criar e construir recursos, defesas, para viver. Se nos separamos dos vínculos primordiais para constituirmos nossa integridade individual, passamos a vida inteira tendo de ver e rever nossas capacidades e limites. Pelo impulso de recorrermos ao aparentemente mais fácil, ou por um anseio persistente de retomarmos alguma possibilidade de viver a experiência perdida de extrema dependência, tendemos a nos agarrar a qualquer coisa que pareça nos oferecer tal realização.

Em relação ao celular propriamente dito, ele contém em si tantas capacidades que facilmente pode ser usado como acessório a esse desejo de buscarmos condições para sentirmo-nos mais seguros ou ainda poderosos. Vemos situações curiosas que exemplificam essa necessidade, ao que parece, de tornar potentes nossas ações, driblando os aspectos da realidade que desmentem esta vaidade. Coisas como “não dá para estarmos em vários lugares ao mesmo tempo”, “preciso de um tempo para me transportar de um lugar ao outro”, “às vezes deixamos alguém nos esperando”, “a falta é inerente à vida” são algumas revelações da nossa condição humana, limitada, finita e imperfeita.

Há poucos dias tive a oportunidade de presenciar a passagem de uma moça pelo caixa do supermercado. Ela colocou suas compras na esteira, passou pelo caixa, pagou, empacotou os objetos, colocou-os em seu carrinho e foi embora, tudo isso falando ao celular. Talvez ela até tenha enxergado a pessoa que estava trabalhando no caixa, mas não posso garantir. Desconfiei que ali não houve uma relação empregado/cliente, pois a cliente, apesar de estar no supermercado naquele momento, triunfava sobre essa limitação ao fazer outro contato através do seu aparelho móvel.

Experiências assim, que ocorrem todos os dias, de diferentes maneiras, vão construindo um jeito de viver em que tal acessório externo vai se tornando um elemento fundamental, já que com ele e só com ele podemos manter esse modo de vida onipotente. Mas, como os lapsos existem – queiramos ou não – e os aparelhos tecnológicos falham, há momentos em que a falta do celular pode revelar reações que deflagram o grau de dependência que existe ali.

Em reportagens sobre o assunto, vi que existe um rápido teste para avaliar nosso estado de comprometimento. Perguntas como: “Você nunca deixou o celular desligado?”, “Já interrompeu um momento íntimo para atender ao celular?”, “Entra em pânico quando pensa que perdeu o celular?”, “Você volta para buscar o celular, caso o tenha esquecido?”. Eu incluiria “Você não consegue realizar uma atividade sem usar o celular, mesmo que pudesse esperar?”. Se respondermos sim à maioria das questões, podemos levantar a hipótese de nomofobia.